No texto “musica eletrônica e tecnologia: reconfigurando a discotecagem” a autora aborda questões relacionadas a musica eletrônica, tais como a utilização da tecnologia no processo de criação, o papel do dj e como se deu a sua reconfiguração no cenário musical e a relação entre musica eletrônica e cultura, levando em consideração o circuito de produção - circulação – consumo.
Para entender melhor o fenômeno, Simone Sá, resgata a historia da musica eletrônica, desde os primeiros dj’s a utilizarem a tecnologia como um meio de produção ( e não só de reprodução de conteúdo), passando pelo surgimento dos gêneros, house, acid-house e techno - que, pode-se chamar, marco inicial da disseminação da musica eletrônica – até os djs contemporâneos que se configuram como verdadeiros artistas, os quais não só criam suas músicas através de colagens e dos efeitos sonoros advindos dos aparelhos tecnológicos, como também, necessitam da sensibilidade necessária para “sentir” o ambiente no qual improvisa.
O movimento da musica eletrônica alcança o Brasil em meados dos anos 90, onde já pode ser reconhecida como um produto cultural legítimo, tendo em vista as mudanças que proporcionou no cenário musical, principalmente nos processos de produção, circulação e consumo. Através da ME, a produção passou a ser questionada do ponto de vista dos direitos autorais, já que fazia uso de samples de musicas antigas de outros autores na confecção de novos “tracks”. Além disso, outra questão, que diz respeito à circulação, veio à tona. Como se tratava de algo muito imediatista, e, portanto, o uso da improvisação era constante tornou-se difícil encaixar esse tipo de musica no padrão vigente de circulação de produtos da indústria fonográfica, o que por outro lado, concebe importância aos suportes fita e cd, na circulação desse gênero musical, fosse ela de maneira legal ou não. Na esfera do consumo prevalece a utilização das mídias de nicho, já que o importante é atingir ao publico certo, ou seja, as mídias massivas não têm tanta importância aqui.
O papel do dj mudou ao longo dos anos e isso também contribui para reconfigurá-lo nas esferas de produção, circulação e consumo. O profissional que antigamente era discriminado pela inutilidade de suas funções – geralmente alguém que conhecia muito de musica e tinha que colocar a disposição do publico os discos que conhecia - passou a fazer parte, com a utilização das tecnologias e por intervenções próprias, do processo de produção musical. Passou a ser valorizado pelo seu amplo conhecimento, pela maneira como utiliza determinados sons mecânicos e pela forma como manipula um toca-discos, por exemplo, evidenciando assim o seu estilo e sua nova função; a de editor, produtor e músico.
A autora sugere, então, um remetimento à discussão proposta por Bolter e Grusin em torno da noção de remedição, entendida aqui como a maneira como um meio se apropria de outro sem deixar de ser ele mesmo e sem descaracterizar os aspectos deste outro.
Desta maneira, sugere-se pensar na atividade dos dj’s como dialogo com as praticas anteriores de produção musical e como essas atividades são reconhecidas hoje em dia. Nesse caso, pensamos a remediação como caracterizada por duas lógicas: a da imediaticidade, na qual o individuo interage diretamente com o conteúdo do meio; e a da hipermediatização, na qual, os sons, ruídos e interferências provocados pela tecnologia são percebidos e , para além disso, são propositadamente evidenciados na música.
É no pós-guerra, com a ascensão do Rock’n Roll que, na musica começa-se a ver a relação entre essas duas lógicas, muito embora, ainda haja um forte determinismo da imediaticidade até mesmo no trabalho dos dj’s que, às vezes, à procura de um estilo único e de som perfeito, acabam caindo nessa perspectivas.
No entanto são esses profissionais que deslocam a noção de aura no campo musical, à medida em=quem nos tornam conscientes do processo de internalização sofrido pela musica através de aparelhos tecnológicos ao longo da historia. São eles que ampliam a experiência musical contemporânea, consolidando a noção conceitual de autoria, na qual o autor é agente que seleciona, organiza, recombina, a partir de ready-mordes, e utiliza o estúdio como laboratório de suas experimentações musicais.
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